Relato: IYPT 2011 no Irã (parte 3)

4 da manhã. Barulho de mala. Alguém entrando no quarto. Foi assim que acabaram minhas tão adoradas 2h de sono aquela noite. As meninas da Geórgia tinham acabado de chegar. Como elas pareciam meio perdidas, falamos que elas podiam acender a luz e nos apresentamos. Todo mundo voltou pra cama mas, com tudo na minha cabeça (a cerimônia de abertura, o primeiro PF do torneio, o problema que estava tentando resolver em relação a ida ou não do professor para o Irã etc), não consegui voltar a dormir.

6 da manhã. Levantei. Hora de começar a arrumar as coisas. Fui a primeira a levantar no nosso “apartamento”, liguei o Skype um pouco no meu celular por causa da minha mãe. E pouco tempo depois, mais gente começou a sair dos quartos. Muita gente colocando uniforme de time, terno, camisa social. Por volta das 7 e meia da manhã, todas no térreo do alojamento. Uma guia que esperava na porta simplesmente viu meu crachá, perguntou seu era do Brasil e sorriu. Aparentemente, iranianos gostam muito de brasileiros e acontecimentos que viriam mais a frente comprovariam essa tese. Guias na porta, seguimos nosso caminho ao café da manhã. No caminho, nosso guia foi nos indicando cada um dos prédio. O mais recente é o da Engenharia Elétrica, segundo ele, o melhor e mais equipado de todos. Outro que ele gostava bastante era o da Engenharia de Polímeros, pois muitos amigos dele estudam lá. Esperamos os meninos, havia gente perdida, perguntando onde a gente tinha pego água e tudo mais. Digamos que esse café da manhã não me trouxe boas surpresas… Se eu já estava comendo quase nada, aquele primeiro café da manhã teve uma boa dose de colaboração. Peguei um pão, enorme por sinal, mas que tinha um gosto bom até. Após algumas mordidas: uma pedra… Parecia um pedacinho de barro, seco já. Não me agradou muito, mas eu pensei que pudesse ser da panela ou do forno. Então, como eu precisava comer, continuei. Mais algumas mordidas: um pedaço de fita adesiva. Acho que a intenção não era ser um aviso que eu ia apresentar o problema “adhesive tape”. Foi aí que a única coisa que eu passei a comer foi o tal do Lavash, pois ele era tão fino que não poderia trazer nenhum tipo de “surpresa”.

Hora da cerimônia de abertura. Fomos conduzidos até os lugares que estavam separados para o nosso time. Se ela foi divertida ou não, acho que as imagens da imprensa iraniana falam mais do que milhões de palavras. Mas, sim, tivemos diversas história interessantes. Nós tínhamos fones para tradução simultânea! Apesar de não funcionarem muito bem, eles era legais, algumas autoridades iam falar em persa. Durante os milhões de discursos sobre a importância da ciência, o desenvolvimento do Irã, a importância de tal evento, como a união de tantos jovens interessados de todo o globo num só local era incrível e tudo mais, misteriosamente nosso time foi chamado para fora do auditório. Quando chegamos lá, tinham umas duas câmera, dois repórteres e um tradutor. O que eu pensei foi… err… a gente tem que dar entrevista, é isso? Mas quando você pensa: vão ser perguntas sobre o que esperamos da competição ou que estamos achando do Irã, vem a primeira pergunta… “Pelé!”. Hã? Oi? Ele falou mais alguma coisa e depois o tradutor falou: “Ele está perguntando porque vocês não trouxeram o Pelé.” Sério mesmo? A única coisa que nos restou foi cair na gargalhada. E vieram mais perguntas: “Vocês acham que a sua física vai ser tão boa quanto o seu futebol?” e por aí vai. Terminando com: “Quem vocês acham que pode ganhar a competição?”. Hesitamos bastante nessa resposta, até que o Lucas terminou com “a Áustria, mas nós esperamos superá-los” e todo mundo em volta começou a rir. Terminada a entrevista, eis que o Michael nos pergunta porque hesitamos tanto naquela resposta, expliquei que é meio complicado, porque supõe-se que nós tenhamos trabalhado tanto e seria meio estranho falar que nós esperamos que um de nossos concorrentes ganhe. No fim das contas, a gente começou a entender porque iranianos gostam de brasileiros: futebol. Aliás, quando nosso avião estava aterrissando no Irã, um brasileiro estava do nosso lado dizendo que trabalhava como jogador de futebol por lá.

Voltamos ao auditório. Os times começam a ser chamados ao palco. Primeiro, o país mãe do torneio – Rússia.  O capitão apresenta o time e todos descem. O mestre de cerimônias vira e fala o que se tornaria piada durante todo o torneio: “It’s not I-run, that’s Iran” (procurem a pronúncia correta no google tradutor), arrancando risadas da plateia. Ele quis dizer que o capitão tinha pronunciado como “eu corro”. E os próximos times continuaram a subir se corrigindo, com o comentário final “you run, but I don’t”. Ok, isso pode não parecer engraçado lendo, mas vendo os gestos que acompanhavam as falas, as caras e o local era hilário. Todos os times se apresentaram, inclusive a gente. Ocorreu o sorteio das chaves. Cerimônia terminada, hora do almoço.

Eu basicamente não engoli nada. Um amigo do Michael sentou com a gente na mesa e nos contou a história de como ele havia queimado o rosto inteiro. Hm… acho que, no almoço, a conversa foi mais sobre a inflação e o governo no Irã. Saindo do almoço: prédio da física. Eu a a Julliana fomos pegar nossos materiais no alojamento ao lado e todo mundo se dirigiu a sala onde se dariam nossos combates. Chegamos antes dos outros times (Rússia e Bielorrússia, não fosse pela gente, o PF poderia ser feito como nos primeiros YPTs: em russo), então deu pra arrumar algumas coisas. Veio o time da Bielorrússia perguntar se podiam filmar o PF e que nos passariam os vídeos depois. Aliás, eles colocaram esses vídeos no YouTube. O Michael entrou para assistir o fight com o amigo dele. Fomos os primeiros a apresentar. Apresentamos o problema 13, avaliamos o 5 e fizemos oposição para o 12. As notas foram horríveis e, de certa forma, injustas, comparando notas e desempenhos com outros times. O que mais me deu raiva foi a forma como alguns concorrentes, me desculpem o termo, puxavam saco de jurados e pagavam de bonzinhos na frente da banca pra ganhar nota e uma das juradas virar pra gente e falar que “brasileiros são grossos”, entre outras coisas que não valem a pena serem publicadas na internet. Contudo o que mais marcou naquele PF era: nenhum projetor funcionava (tiveram que trocar uma três vezes), o ar condicionado não ligava (o calor estava absurdo e tudo que eu queria era tirar aquele véu) e colocaram um ventilador que nem ajudava, tivemos que usar um computador de outro time (em russo) porque podia dar problema no projetor se trocasse. O PF demorou umas duas horas a mais do que o normal, teve muuuito problema. Por fim, saímos bem pra baixo e fomos direto ao refeitório.

Lá, não comi nada novamente. A comida estava mais diferente que o normal (que contradição) e tinha uma espécie de hambúrguer verde, que no dia seguinte o Michael (o nome dele está sendo citado demais, mas o fato é que ele estava com a gente em todos os lugares) disse que se chamava “cucu” (já deve ter percebido que isso virou piada).

Voltamos ao alojamento. Aparentemente, todos os times tinham sofrido nas mãos dos jurados, porque todas as meninas estavam revoltadas. Dos 60 jurados listados, metade era gente afiliada à universidade local por causa da falta de gente inscrita, o que gerou certos problemas já que eles nunca tinham tido contato com o torneio antes. Isso levou até mesmo a uma reunião de emergência pra poder colocar todo mundo a par das regras de maneira apropriada na manhã seguinte.

Eu fui falar no Skype, arrumar minhas coisas, o dia seguinte seria longo…

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