Bárbara Cruvinel Santiago

Bárbara apresentando o problema "Magnet and Coin" no 3º PF na Alemanha, em 2012.

Bárbara apresentando o problema “Magnet and Coin” no 3º PF na Alemanha, em 2012.

No momento em que eu escrevo este texto, quase 2 anos depois da minha última participação como membro de equipe do Brasil, se eu tivesse que descrever tudo o que o IYPT significou na minha vida, eu não saberia o que dizer. De verdade. O IYPT foi por todos os três anos do meu ensino médio (e convenhamos, depois que a escola terminou também), não só uma competição, mas meu vício. Eu não imagino como aqueles três anos e minha vida depois deles seriam sem o torneio, porque o IYPT foi praticamente escola e família para mim.

Sendo uma estudante de física, o IYPT literalmente foi o que fez a minha cabeça para desistir da engenharia e estudar o que eu estudo agora. Nada me cansava mais do que virar noites estudando, lendo papers e planejando experimentos, mas nada me fazia me sentir mais realizada. Até hoje, eu penso que não há sentimento no mundo que pague você chegar numa fórmula final para um fenômeno depois de acordar no meio da noite pensando nisso ou sair correndo e pulando pela casa quando você desvenda um fenômeno ou vê que seus dados batem com seu modelo teórico. Na época do torneio, minha casa virou meu laboratório particular: meu corredor virou pista de corrida para carrinhos movidos a balão, eu bloqueei a entrada da minha cozinha para filmar bolinhas rolando em uma rampa, usei meu quarto para gravar ímãs oscilando e as minhas portas para dependurar molas. Ainda assim, perdi a conta de quantos dias eu gastei enfiada dentro do laboratório da escola. Eu me inspirei através do IYPT a seguir carreira em pesquisa científica e o torneio me possibilitou desenvolver habilidades que até hoje são úteis para mim nesse aspecto. Foi uma época cansativa, mas é com muita nostalgia que eu lembro de tudo aquilo. As semanas de preparação presencial do time brasileiro eram sempre diversão garantida, com muito trabalho e noites plotando gráficos, mas com piadas e brincadeiras que tendiam ao infinito.

Uma frase que eu nunca vou esquecer é “Porque nós sempre voltamos para o IYPT? Por causa dos amigos que nós fazemos aqui”, que foi dita pelo presidente do torneio em Bad Saulgau em 2012. Essa frase sempre ficará pregada na minha memória, porque nada é mais verdadeiro. O IYPT me fez sentir acolhida e me proporcionou conhecer pessoas incríveis do Brasil e do mundo, pelas quais eu tenho profunda admiração. Eu conheci boa parte dos meus amigos mais próximos no torneio nacional e eu jamais esquecerei os dias andando pelos corredores do torneio ouvindo os mais diversos sotaques discutindo os mais variados assuntos. Eu nunca teria a oportunidade de conhecer toda essa gente inspiradora, não fosse pelo IYPT. Hoje, eu estudo com gente que eu conheci no torneios internacionais e o IYPT sempre está nas nossas conversas, seguidas de muitas risadas nostálgicas, mesmo anos depois da competição.

Através do IYPT, eu tive meu primeiro contato com o mundo lá fora. É com muito carinho que eu lembro de ver o sol nascendo na paisagem desértica do Irã, de ficar no aeroporto conversando com o time da Alemanha esperando nosso voo, de andar pelas ruas de aparência medieval de Bad Saulgau, de me perder com o time da Bulgária em Stuttgart, de voltar para o torneio e ter minhas amigas da Geórgia do ano anterior nos esperando de braços abertos, de subir os alpes suíços com o time brasileiro mais “massa” (como diria nossos membros piauienses) para um merecido descanso, de ficar jogando com os participantes de outros países no gramado do nosso alojamento ou de tirar fotos no prédio mais alto do mundo em Dubai. Hoje, entre as minhas coisas, tenho as lembrancinhas dos outros times, como pins, lenços, cartões postais, CDs e chaveiros das mais variadas partes do globo. Isso me lembra sempre de que tudo aquilo não foi só um sonho, mas sim uma coleção de algumas das memórias mais incríveis que eu já tive na minha vida e que jamais caberiam neste texto tão “curto”.

O IYPT me transformou de uma pessoa extremamente introvertida a alguém que valoriza a presença de outras pessoas com os mesmos interesses e que não tem mais medo de falar em público. Aprender a falar com outras pessoas de maneira mais natural e a me expressar na frente de um público grande foi uma das habilidades mais importantes que o IYPT desenvolveu em mim. Quem me via apresentando nos PFs finais da nacional não imagina o quanto de nervosismo que se passava nos bastidores. Confesso que eu sempre usava roupas com bolso, porque eu sempre tinha onde esconder minhas mãos tremendo de ansiedade durante os PFs. Entretanto, a boa notícia é que isso tudo passou, e a menina tímida que participou da nacional em 2010 mal se parecia com a Bárbara na última participação dela na Alemanha em 2012, devido ao meu crescimento pessoal na competição.

Hoje, ajudar o time do Brasil a conseguir galgar mais e mais posições é uma meta para mim e me separar do IYPT certamente não é uma alternativa. A emoção de quando eu ouvi o nome do Brasil ser anunciado entre os medalhistas na premiação internacional ou de quando eu vi uma plaquinha com um 10 escrito ser levantada para o nosso time verde-amarelo ao apresentar um dos meus problema nunca será apagada da minha mente. Não costumo me emocionar por pouca coisa, mas não tem um PF que eu assista que não me faça sorrir, chorar ou torcer com muita emoção e ansiedade. Só ex-participante do torneio consegue entender isso. Às próximas gerações de competidores: aproveitem cada momento, porque, apesar de que vocês vão sim ter experiências tão importantes e incríveis quanto o IYPT depois, o torneio continua sendo único e, se eu pudesse voltar no tempo para algum ponto da minha vida, esse ponto seria algum momento com boas memórias do IYPT…

Bárbara Cruvinel Santiago foi membro da equipe brasileira no IYPT 2011 e no IYPT 2012, onde ganhou medalha de bronze, sendo premiada também no IYPT Brasil 2010, IYPT Brasil 2011 e no IYPT Brasil 2012. Hoje, ela escreve para o IYPT BR, auxilia na tradução dos problemas para a nacional, volta para assistir o torneio sempre que pode e ajuda na preparação do time brasileiro.

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